domingo, 14 de outubro de 2012

Chefe de fiscalização do trabalho entrega cargo e critica pasta



BRENO COSTA

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
JULIANNA SOFIA

DE BRASÍLIA

Responsável no Ministério do Trabalho pelas ações de combate ao trabalho escravo e infantil, Vera Lúcia Albuquerque entregou o cargo ontem com severas críticas ao ministro Brizola Neto (PDT).
"Estou saindo porque querem impor um cabresto político na secretaria", disse à Folha a secretária de Inspeção do Trabalho, uma das mais importantes da pasta.
Vera, 64, estava no cargo desde o início do governo Dilma Rousseff e diz ter sido "surpreendida" pela nomeação de um novo responsável pela chefia da Fiscalização do Trabalho na superintendência do ministério no Rio, base política de Brizola.
Fábio Braga - 1º.mai.12/Folhapress
Ministro do trabalho, Carlos Daudt Brizola, o Brizola Neto
Ministro do trabalho, Carlos Daudt Brizola, o Brizola Neto
Em carta enviada ontem ao assessor especial da Secretaria-Geral da Presidência, José Feijoó, à qual a Folha teve acesso, Vera diz que a manobra na superintendência representa um "sinal verde à corrupção". Ela reclama do fato de não ter sido consultada a respeito da nomeação.
Na carta, Vera afirma que Adriano Duarte Tanure, o novo chefe de fiscalização, "é visto no seio da categoria como uma pessoa que seria complacente com os malfeitos".
À reportagem Vera evitou fazer acusações diretas a Tanure, e afirmou apenas que "ele é uma pessoa tranquila, mas não é uma pessoa forte".
As ações de fiscalização da secretaria até agora comandada por Vera são sensíveis, pois se tratam de terrenos férteis para pagamento de propina em troca de vistas grossas sobre eventuais irregularidades em obras de grande porte, por exemplo.
Vera contou que vinha tentando uma audiência com o ministro desde setembro para expor o caso. "Ele não para aqui. Nunca", disse ela.
Questionada se Brizola Neto era complacente com eventuais irregularidades nas fiscalizações, ela disse apenas que ele é desinformado sobre o que acontece em sua pasta.
Vera deixou claro que o "cabresto político" na fiscalização do trabalho começou na gestão dele. "As anteriores nunca deram palpite na inspeção do trabalho."
Ao blog do jornalista Leonardo Sakamoto ela também disse que "há uma tentativa de defender o empregador a qualquer preço". Segundo a Folha apurou, contribuiu para a sua saída a maneira como o governo vem aceitando a pressão de grandes empresas que praticam trabalho análogo à escravidão.
OUTRO LADO
O Ministério do Trabalho informou, em nota, que "lamenta o pedido de demissão [da secretária Vera Lúcia Albuquerque], assim como seus termos inadequados".
A pasta afirmou que os secretários do ministério "possuem amplo acesso" ao ministro Brizola Neto, negando que ele tenha se recusado a atendêla. "A qualquer tempo [os secretários] podem falar com ele pessoalmente ou por telefone", diz o texto.
Sobre a nomeação de Adriano Tanure na superintendência do Rio, o ministério disse que a secretária foi consultada, "por elegância", no dia 3, e que ela não havia se manifestado até anteontem.
Folha não conseguiu contato com Tanure até a conclusão desta edição.
A Secretaria-Geral da Presidência afirmou, também em nota, que o contato de Vera Albuquerque com José Feijoó se deu "exclusivamente para justificar seu desligamento do governo. O órgão nega que ela tenha escrito com o objetivo de alertar para um quadro de complacência com a corrupção no ministério.

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