domingo, 9 de outubro de 2011

ProJovem gasta muito e forma muito pouco.

Lição perdida
agência o globo:Leila Suwwan
O Globo - 04/10/2011
Em seis anos, ProJovem Urbano formou 38% dos alunos; no campo, índice foi de 1%.
O ProJovem, programa federal de mais de R$3 bilhões para o resgate de jovens que estão fora da escola e desempregados, acumula em seis anos um histórico de fracasso e descontrole financeiro. Seu eixo principal, o ProJovem Urbano, custou R$1,6 bilhão em seis anos e diplomou 209 mil alunos, menos da metade (38%) dos participantes. O programa foi cancelado este ano, a coordenadora demitida, e 87% das prestações de contas já entregues não foram analisadas. Na sua versão para o campo, em quatro anos, só 1% dos 59 mil jovens matriculados foram diplomados. E o braço "Trabalhador" do programa é alvo de investigações de direcionamentos para ONGs.
Desde 2008, o ProJovem é dividido em quatro modalidades, geridos por órgãos diferentes, e tem como meta ajudar brasileiros de 15 a 29 anos a concluir o ensino fundamental e um curso profissionalizante, com bolsa de R$100 por mês. Segundo estudo recente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), um em cada quatro jovens nessa faixa etária é o público-alvo do programa. Só a vertente chamada de ProJovem Adolescente não oferece cursos e bolsas, apenas atividades socioeducativas para adolescentes em situação de risco social.
Frequência não era controlada
O ProJovem Urbano, comandado pela Secretaria Geral da Presidência, começou em 2005, foi reformulado em 2007 e congelado em 2011. Em 2012, será retomado pelo Ministério da Educação, com novas regras, mas pouco se sabe do destino das centenas de milhões de reais repassadas a estados e municípios. Considerando-se as 246 contas prestadas referentes a 2008 e 2009, 214 não foram analisadas pelo governo, segundo levantamento do GLOBO no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Esse descaso motivou advertência do Tribunal de Contas da União (TCU), que auditou o ProJovem.
Além disso, os auditores descobriram que não existia controle formal de frequência dos alunos no ProJovem Urbano, apesar de o comparecimento ser requisito para receber o auxílio mensal de R$100. Por outros mecanismos, descobriu-se que a presença de jovens nas salas de aulas variava de 1% a 10%, na amostra de 14 cidades fiscalizadas.

No pente-fino feito no convênio de 2005 no Rio de Janeiro, o descontrole foi flagrante. Seis anos após repassar R$53,6 milhões para o estado, a capital ainda estava inadimplente. Os dados foram enviados às pressas, mas não foram analisados, apesar das outras irregularidades encontradas. A verba foi repassada a 75 ONGs. A meta era formar 25,5 mil jovens na capital em cursos de 18 meses. Mas só 10% dos alunos estavam diplomados no fim do segundo ano.
R$138 milhões em cursos no campo
"A presença de alunos em sala de aula vai de 1% a 10% do total de alunos matriculados nos núcleos visitados", diz o relatório do TCU, citando o que foi constatado durante a aplicação de questionários qualitativos pelas universidades federais envolvidas no programa. Foram encontrados indícios de fraude em São Gonçalo, onde diversas folhas de frequência repetiam 100% de comparecimento. Em Olinda (PE), os dados no sistema de controle eram alterados. Foram constatados índices de evasão no ProJovem Urbano que chegavam 65% em Campo Grande (MS) e 72% em Curitiba (PR).
No ProJovem Campo, só 1% (795) dos cerca de 59 mil jovens cadastrados concluíram o curso, segundo o MEC; 16% desistiram e 40% aguardam pela formação de turmas para o curso, que dura dois anos. Apesar disso, o Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) aponta que já foram gastos R$138,5 milhões com esse programa, o que cobre integralmente a formação de quase todos os cadastrados, num total de R$2,4 mil por aluno.
O gasto dessas verbas tem controle precário. Segundo pesquisa no FNDE, as prestações de contas de 2008 foram analisadas, com reprovação apenas para o estado do Rio de Janeiro. Mas para os repasses de 2009, quase todas as prestações ainda estão na gaveta, segundo pesquisa no FNDE.
Os números apresentados pelo governo para o ProJovem Trabalhador, que já gastou R$586 milhões desde 2008, mostram um caso de sucesso: 344 mil jovens diplomados, de um universo de 409 mil vagas oferecidas, com 37,6% dos formados inseridos no mercado de trabalho. Mas nenhuma análise de prestação de contas terminou e o Ministério do Trabalho não divulgou informações sobre irregularidades.
O ProJovem Trabalhador frequenta o noticiário sobre investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, geralmente por direcionamentos para ONGs e desvios. Em julho, o MP suspendeu R$1,5 milhão da Fundação Bioética, no Mato Grosso do Sul, após suspeita de direcionamento do contrato e falsa prestação de serviços. No Maranhão, promotores investigam a Fundação Gomes de Souza, suspeita de irregularidades, que recebeu R$13 milhões, sem licitação. Em São Paulo, cinco entidades levaram cerca de R$20 milhões, sem concurso.
Superfaturamento atinge o programa
Por amostragem em 14 municípios, o TCU achou no ProJovem Trabalhador os mais altos índices de superfaturamentos, chegando a cerca de 50% das despesas em São Gonçalo (RJ), Maranguape (CE) e Cascavel (PR).
No ProJovem Adolescente cerca de 50% dos jovens de 15 a 17 anos participam dos "coletivos" socioeducativos, que duram dois anos, segundo informação do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), que coordena o programa e já repassou cerca de R$900 mil desde 2008.
Mas o controle dos recursos foi considerado "precário" pelo TCU. Só este ano o ministério instalou um programa automatizado de monitoramento. O resultado foi o cancelamento de 1.195 turmas. Ainda assim, o ministério depende das informações passadas pelas cidades. Tampouco é informada sobre irregularidades que eram constatadas por autoridades estaduais.
Na prática, houve repasse de recursos em cidades onde "coletivos" não estavam funcionando: Sete Lagoas (MG), Fortaleza (CE), São Vicente (SP), São Gonçalo (RJ) e Goiânia (GO). A falta de acompanhamento sugere que situações semelhantes podem acontecer em várias outras localidades do país.

Revistas de Lupi encalham, e R$ 150 mil se perdem.

No depósito da antiga gráfica do Ministério do Trabalho, 686 caixas com 55.320 exemplares juntam poeira e assessor diz que não sabe explicar por quê.
MARTA SALOMON / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

No subsolo do anexo do bloco F da Esplanada dos Ministérios, 686 caixas juntam poeira na antiga gráfica do Ministério do Trabalho, fechada há dois anos. Nesse período, foram se acumulando ali "sobras" da Revista Trabalho, impressa em papel cuchê, ao custo estimado de R$ 2,70 por exemplar, numa gráfica privada. O tamanho do desperdício se aproxima de R$ 150 mil.
"Sinceramente, não sei como explicar isso", disse Max Monjardim, assessor especial do ministro Carlos Lupi, um dos integrantes da executiva nacional do PDT nomeados para o comando do Ministério do Trabalho. Monjardim assina a coordenação editorial do projeto. A revista é uma publicação trimestral.
Na véspera, Monjardim havia respondido que o ministério mantinha exemplares em número reduzido. "Apenas o suficiente para o arquivo ou demanda extra", informou a assessoria de imprensa, por orientação do assessor especial. Os exemplares não distribuídos representariam "cerca de 3%" da tiragem. Cada edição foi impressa ao custo de R$ 160,6 mil, segundo o ministério. Monjardim calculou que estariam no depósito 1.800 exemplares de cada uma das sete edições impressas na Gráfica e Editora Brasil.
O Estado fotografou o depósito com pilhas de caixas com exemplares da Revista Trabalho impressos desde 2009. O depósito, identificado com o aviso "gráfica fechada", é protegido por cadeado e foi aberto por um funcionário. As contas do ministério e da reportagem se desencontravam.
Ontem, Monjardim mandou um funcionário contar o material logo cedo. O funcionário listou 686 caixas, contendo 55.320 exemplares de sete edições diferentes. Há no depósito 42.420 revistas a mais do que a "reserva técnica" necessária. O menor encalhe é de 5.500 exemplares, do número 8 da publicação. O número anterior registrou o maior encalhe: 10.200 exemplares.
Com os números à mão, Monjardim não soube explicar a cena registrada no depósito localizado no subsolo do Ministério do Trabalho. "Vou sentar com os Correios (estatal responsável pela distribuição das revistas) para tentar entender o que aconteceu", disse.
Mapa.
O mapa da distribuição mostra que a maior parte das edições se destina às secretarias regionais do trabalho nos Estados. Também recebem exemplares os governadores, os 594 deputados e senadores e todos os prefeitos do País. O documento aponta uma sobra de 8.700 exemplares para uma edição de 60 mil. Um dos números da revista teve edição ampliada para 70 mil exemplares. "Não me lembro de ter autorizado isso", disse Monjardim.
A edição que acumula a maior sobra dedica sete páginas às oportunidades de emprego criadas pelas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia. Com o texto principal intitulado Um rio de oportunidades, começou a circular logo depois do quebra-quebra nos canteiros de obras de Jirau, que levou a Força Nacional de Segurança ao local, por conflitos trabalhistas.
São fartas, ao longo das edições, as imagens do ministro Carlos Lupi. Na edição de número 9, que circulou no início de 2011, Lupi aparece na região serrana do Rio de Janeiro, sua base eleitoral. "Ministro Lupi dedicou boa parte de sua agenda em fevereiro em apoio às vítimas de uma das maiores tragédias naturais do País", informa a revista com destaque na sessão Agenda do Ministro.